PATRIOTISMO, PRUDÊNCIA E A INVERSÃO DO RACIOCÍNIO CÍVICO
RedeSat
Na atualidade brasileira, tornou-se mais frequente ouvir discursos de pessoas que se identificam como “patriotas” e que, justamente por essa autoimagem, chegam a sustentar que uma intervenção estrangeira seria preferível à continuidade do governo. A afirmação, ainda que por vezes apresentada como desabafo ou figura de linguagem, revela um deslocamento relevante: ela rompe o vínculo lógico tradicional entre patriotismo e defesa da nação, substituindo a prudência cívica por um raciocínio de exceção.
O patriotismo, em sua acepção mais consistente, não é mera expressão emocional nem simples marca de pertencimento a um grupo. Trata-se de uma ideia ligada à proteção do país como comunidade política, o que envolve soberania, autonomia decisória, preservação institucional e a busca do interesse nacional. Mesmo quando se critica duramente um governo — o que é legítimo e esperado em democracias — o pressuposto do patriotismo é que a correção de rumos ocorra por meios internos, compatíveis com a continuidade do Estado e com a integridade do pacto coletivo. Em outras palavras: pode-se reprovar o governo sem reprovar o país; pode-se rejeitar políticas sem abdicar da soberania.
É precisamente nesse ponto que a defesa de intervenção estrangeira, apresentada como alternativa “preferível”, rompe a lógica da prudência. A prudência política, entendida como a avaliação racional de meios e consequências, recomenda distinguir entre o que é transitório — governos e agendas — e o que é estrutural — Estado, instituições e soberania. A intervenção estrangeira, ao contrário, incide diretamente sobre o plano estrutural: introduz assimetria de poder, condiciona decisões internas e reduz a margem de autodeterminação nacional. Assim, quando alguém se afirma patriota e, simultaneamente, relativiza a autonomia do país, o conceito de patriotismo é reconfigurado: deixa de significar defesa da nação e passa a significar oposição absoluta ao governo de turno.
Esse deslocamento produz uma inversão lógica relevante. O amor à pátria deixa de ser medido pela preservação da soberania e passa a ser aferido pela intensidade da rejeição ao adversário político. A defesa da nação — que deveria constituir o núcleo do patriotismo — converte-se em instrumento de disputa, como se o país existisse para servir à vitória de um lado, e não como um projeto comum destinado a sobreviver às alternâncias do poder.
Há ainda um equívoco adicional, frequentemente implícito nesse tipo de discurso: a expectativa de que uma intervenção externa possa funcionar como mecanismo neutro de “correção” da política interna. A experiência histórica e a lógica das relações internacionais indicam o contrário. Intervenções, influências e tutelas não se orientam por altruísmo, mas por interesses estratégicos. Mesmo quando revestidas de promessas de “ordem”, “estabilidade” ou “eficiência”, tendem a impor condicionantes e custos que recaem diretamente sobre a capacidade de decisão do país interveniente.
Isso não significa negar a legitimidade de alianças internacionais, cooperação econômica, acordos tecnológicos ou alinhamentos diplomáticos. A cooperação é parte constitutiva da vida contemporânea. O ponto central é a distinção entre parceria e subordinação. Patriotismo não exige isolamento; exige, sim, que qualquer relação externa preserve a capacidade do país de escolher seus próprios caminhos, sem tutela. A defesa de intervenção estrangeira, por definição, encurta essa capacidade.
Quando a política interna se torna altamente emocional, é compreensível que parte do discurso público busque saídas “rápidas” e soluções “definitivas”. Mas é justamente nesses momentos que a lógica prudente precisa prevalecer. O governo de hoje é contingente; a soberania, quando corroída, pode levar décadas para ser reconstruída. A alternância de poder é um mecanismo democrático; a tutela externa é um mecanismo de dependência.
Dessa forma, se a intenção é pensar o patriotismo de maneira coerente, convém recuperar seu vínculo lógico original: patriota é quem protege o país acima das preferências circunstanciais, inclusive quando o governo desagrada. Criticar, fiscalizar, protestar e votar são instrumentos legítimos — e necessários — para corrigir rumos. Substituí-los por uma aposta em intervenção estrangeira não apenas rompe com a prudência; também redefine o patriotismo de forma paradoxal, transformando a defesa da nação em justificativa para relativizar aquilo que a sustenta: a autonomia do próprio Brasil.

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