A crise da Venezuela e o futuro da ordem multipolar - Por Fausto Pinato, deputado federal e presidente das Frentes Parlamentares Brasil–China e BRICS na Câmara dos Deputados
EDITORIAL
Os acontecimentos recentes na Venezuela marcam um divisor de águas na história das relações internacionais contemporâneas. A prisão do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, seguida de sua transferência forçada para os Estados Unidos após um ataque militar à capital Caracas, representa uma violação grave, inédita e inaceitável da soberania de um Estado-membro das Nações Unidas. Mais do que um episódio regional, trata-se de um sinal inequívoco do esgotamento da ordem internacional fundada no respeito ao direito internacional.
Quando uma potência decide agir unilateralmente, à revelia da Carta da ONU e do Conselho de Segurança, substituindo normas multilaterais pela lógica da força, todo o sistema internacional entra em risco. O precedente aberto é perigoso: se hoje Caracas é alvo, amanhã qualquer capital pode sê-lo, inclusive Brasília, caso interesses hegemônicos se sobreponham à legalidade internacional.
A crise venezuelana evidencia, com clareza inédita, a falência dos mecanismos atuais de governança global diante do unilateralismo. Nesse contexto, as iniciativas de reforma e aprimoramento da governança internacional, defendidas pela China e apoiadas por países do Sul Global, mostram-se não apenas legítimas, mas urgentes. Não se trata de criar uma ordem paralela, mas de resgatar o espírito original das Nações Unidas: a proteção da soberania dos Estados, a não ingerência em assuntos internos e a resolução pacífica de conflitos.
A resposta coordenada de China, Rússia, Brasil, Índia e demais países do BRICS demonstra que a multipolaridade deixou de ser um conceito teórico para se tornar uma realidade operacional. O bloco mostrou capacidade de articulação política, diplomática e estratégica diante de uma agressão que ameaça os fundamentos do sistema internacional. Essa atuação reforça a ideia de que a estabilidade global depende da diversificação de poder e do fim da hegemonia absoluta.
Para o Brasil, o episódio também impõe reflexões internas. A soberania nacional não se sustenta apenas em discursos diplomáticos, mas exige capacidade material de dissuasão, autonomia tecnológica e uma base industrial de defesa robusta. Fortalecer a cooperação estratégica no âmbito dos BRICS, inclusive na área de defesa, é parte essencial desse processo.
A crise venezuelana não é um evento isolado. Ela é o sintoma mais visível de uma transição histórica em curso. O mundo caminha, de forma irreversível, para uma ordem multipolar. A escolha que se impõe aos Estados é clara: ou reafirmam o direito internacional e o multilateralismo, ou aceitam um cenário de instabilidade permanente, onde a força substitui a lei.
Comentários (0)