Relendo “Murar o Medo” — Mia Couto
RedeSat
O medo voltou a ser o idioma comum do planeta. Ele circula mais rápido do que a verdade, atravessa fronteiras sem passaporte e entra pelas frestas do cotidiano com a naturalidade de quem já mora em nós. A diferença é que, hoje, não chega vestido de lendas antigas. Vem com gráficos, notificações, alertas de “última hora”, relatórios de inteligência, mapas de calor, algoritmos que adivinham nossas hesitações antes mesmo que as confessemos.
A cada semana, surge um novo motivo para erguer muros. Muros de concreto, quando há orçamento e licença. Muros simbólicos, quando basta uma palavra para reduzir o outro à condição de ameaça. Muros digitais, quando se bloqueia a nuance e se premia o grito. E, sem perceber, passamos a chamar de prudência aquilo que, muitas vezes, é apenas desistência: desistência de compreender, de escutar, de conviver.
Vivemos numa época em que a insegurança se transformou em produto. Ela é embalada, rotulada e vendida em porções diárias. “Proteja-se”, dizem. “Evite”, aconselham. “Não confie”, concluem. A vida vai sendo rearranjada em torno da prevenção: mais cadeados, mais vigilância, mais protocolos, mais senhas, mais filtros. A liberdade, que sempre exigiu coragem, passa a depender de autorização. A cidadania torna-se um contrato provisório, revogável em nome de uma emergência que nunca termina.
O mundo parece ter sido colocado em estado de alerta permanente. Guerras reabrem feridas antigas e inauguram dores novas. Tensões geopolíticas fazem da paz uma trégua e da trégua uma estratégia. A corrida armamentista cresce alimentada por justificativas morais, como se a violência precisasse de um sermão para ser aceita. E, enquanto os arsenais aumentam, cresce também a sensação de insuficiência: mais drones, mais mísseis, mais muros, mais controle — e, paradoxalmente, mais medo.
Talvez o traço mais inquietante deste tempo seja a facilidade com que trocamos a ética por uma narrativa. Quando o medo assume o comando, a pergunta deixa de ser “isso é justo?” e passa a ser “isso é útil?”. A legalidade vira obstáculo; a coerência, ingenuidade; a compaixão, fraqueza. O outro deixa de ser pessoa e se converte em categoria: invasor, inimigo, criminoso, herege, ameaça. E quando o outro vira categoria, a violência encontra conforto — não se agride alguém, “combate-se” algo.
O medo também aprendeu a se disfarçar de virtude. Há quem o chame de patriotismo, de “defesa da família”, de “ordem”, de “tradição”, de “segurança nacional”. Há quem o chame de progresso, modernização, eficiência. Em todos os casos, o efeito é o mesmo: suspende-se a complexidade e oferece-se um mundo simplificado, dividido em lados, como se a realidade coubesse numa torcida.
Enquanto isso, as ameaças mais reais seguem sem o espetáculo que as tornaria “noticiáveis”. A fome continua operando como arma silenciosa: não explode, mas devora; não faz barulho, mas mata; não rende manchetes diárias, mas esvazia futuros. A crise climática não precisa de declaração de guerra para deslocar populações, destruir colheitas e intensificar desastres. A desigualdade — essa engenharia persistente — condena milhões a existências inteiras de sobrevivência. A violência contra mulheres e crianças, tão íntima quanto invisibilizada, permanece como epidemia moral que não mobiliza o mesmo pânico que um inimigo externo.
É aí que o medo revela sua astúcia: escolhe alvos que nos distraem das causas. Faz-nos vigiar o estranho enquanto toleramos o abuso dentro de casa. Faz-nos temer o diferente enquanto normalizamos a miséria ao lado. Faz-nos aceitar o endurecimento das ruas enquanto as estruturas que produzem violência permanecem intocadas. Faz-nos pedir mais grades enquanto a dignidade — que poderia reduzir o crime — segue sem orçamento.
A tecnologia, que poderia ampliar a lucidez, muitas vezes amplifica a aflição. O algoritmo recompensa o que indigna, não o que esclarece. O que divide, não o que aproxima. O que humilha, não o que debate. O resultado é um mundo que reage mais do que pensa, acusa mais do que compreende, sentencia mais do que conversa.
Ainda assim, não estamos condenados a esse regime. Há uma forma de resistência que não é ruidosa, mas é radical: a coragem de perguntar. Perguntar quem lucra com a ansiedade coletiva. Perguntar por que os gastos com armas crescem com tanta facilidade enquanto faltam recursos para alimentar, educar, cuidar e prevenir. Perguntar por que aceitamos perder privacidade e direitos em troca de promessas vagas de proteção. Perguntar por que nos acostumamos à dor dos outros como se fosse parte da paisagem.
Talvez o primeiro passo seja reconhecer que o medo é um péssimo conselheiro quando se torna permanente. O medo é útil como alarme, não como moradia. Quando se instala, transforma nossa humanidade em trincheira. E uma humanidade entrincheirada passa a viver de suspeita, não de encontro.
Não precisamos de um mundo sem medo — isso seria negar a nossa condição humana. Precisamos de um mundo em que o medo não seja governo. Em que segurança não seja sinônimo de controle e proteção não exija a humilhação do outro. Em que a política volte a ser espaço de razão pública, não de devoção. Em que a diferença não seja interpretada como ameaça, mas como possibilidade de aprendizado.
Muros são fáceis de erguer. Difícil é construir pontes onde nos ensinaram a levantar barreiras. Difícil é sustentar a lucidez quando o pânico é conveniente. Difícil é não ceder ao conforto das narrativas simples. Mas talvez seja exatamente aí que resida a nossa tarefa: desarmar os fantasmas, recusar o maniqueísmo e lembrar que o inimigo mais eficiente é aquele que nos faz desistir de pensar.
E, quem sabe, como escreve Mia Couto, admitir a frase que raramente dizemos em voz alta:
“Há quem tenha medo de que o medo acabe” — porque, quando o medo termina, termina também a licença para mandar sem explicar.
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Dr. Marcos Lelis
Área Jurídica – Confraria 01
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