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Até onde um psicopata pode levar o mundo

Lucas Vasques

Até onde um psicopata pode levar o mundo
Imagem da Rede Social

O alerta que ecoa no mundo

Uma declaração feita no início de março lançou uma sombra inquietante sobre o cenário internacional.

Em entrevista ao programa Breaking Points, o economista americano Jeffrey Sachs afirmou que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, age como “um psicopata” na condução da política internacional.

Segundo Sachs, Trump estaria atuando como “fantoche” de interesses israelenses e de setores da inteligência norte-americana, particularmente ligados à CIA.

A acusação é devastadora.

Sachs não é um agitador de redes sociais. Professor da Universidade Columbia e uma das vozes mais respeitadas do debate econômico global, ele pertence ao núcleo duro da elite intelectual americana.

Quando alguém com esse perfil descreve o líder da maior potência militar do planeta nesses termos, o episódio deixa de ser apenas uma polêmica.

Ele passa a ser um alerta sobre a gravidade do momento histórico que o mundo atravessa — um momento em que decisões tomadas em Washington e Tel Aviv podem significar vida ou morte para populações inteiras.

Da câmara de gás ao drone: quando o humano vira alvo

Em 1947, o escritor italiano Primo Levi publicou um relato devastador de sua experiência no campo de extermínio de Auschwitz, criado pelo regime de Adolf Hitler.

O título do livro era uma pergunta dirigida à própria civilização:

“É isto um homem?”

Levi queria compreender como sociedades modernas — com ciência, tecnologia e cultura — puderam criar uma máquina industrial de morte.

Décadas depois, a guerra contemporânea parece introduzir uma nova etapa desse processo de desumanização.

Drones filmam.

Algoritmos analisam.

Mísseis atingem coordenadas.

Na tela do operador, os corpos deixam de ser corpos.

Aparecem apenas como alvos.

O segundo massacre

O filósofo brasileiro Vladimir Safatle observa que a guerra contemporânea introduziu uma nova etapa no processo de desumanização analisado por Primo Levi.

Se Auschwitz transformava pessoas em números, a guerra tecnológica do século XXI transforma seres humanos em pontos numa tela.

Safatle lembra um episódio emblemático da guerra em Gaza: o massacre ocorrido na rua Al-Rashid, quando palestinos famintos foram mortos enquanto tentavam obter comida.

Mas, segundo ele, o massacre ocorreu duas vezes.

Primeiro, pela eliminação física de uma população reduzida à luta pela sobrevivência.

Depois, pelas imagens que circularam pelo mundo.

Filmadas por drones, essas pessoas aparecem como pontos em movimento numa tela, marcados como se fossem alvos em um videogame.

Não vemos rostos.

Não vemos corpos.

Vemos apenas coordenadas de ataque.

É o que Safatle chama de “segundo massacre” — o momento em que o ser humano deixa de existir como sujeito e passa a existir apenas como objeto visual de destruição.

O humano vira dado.

O humano vira pixel.

O humano vira alvo.

Gaza: o massacre diante das câmeras do planeta

A guerra na Faixa de Gaza já se consolidou como uma das maiores catástrofes humanitárias do século XXI.

Estimativas internacionais indicam que mais de 75 mil pessoas morreram desde o início do conflito.

Entre elas, mais de 19 mil crianças.

Relatórios das Nações Unidas indicam que mais crianças morreram em Gaza em poucos meses de guerra do que em todos os conflitos armados do mundo entre 2019 e 2022 juntos.

Em um território minúsculo e densamente povoado, uma geração inteira está sendo destruída diante das câmeras do planeta.

E a violência não se limita às bombas.

O sistema internacional de monitoramento da fome classificou centenas de milhares de pessoas em Gaza no nível máximo de emergência alimentar.

A fome voltou a ser usada como arma de guerra.

Uma arma lenta.

Uma arma silenciosa.

Uma arma que mata sem disparar um único tiro.

O massacre das crianças em uma escola iraniana

No final de fevereiro de 2026, um ataque destruiu a escola primária feminina Shajareh Tayyebeh, na cidade de Minab, no sul do Irã.

O bombardeio ocorreu durante o horário escolar.

Dentro do prédio estavam cerca de 170 estudantes, a maioria meninas entre sete e doze anos.

O míssil atingiu o prédio com violência suficiente para provocar o colapso de parte da estrutura.

Crianças e professores foram soterrados sob os escombros.

As estimativas indicam que mais de 150 pessoas morreram, a grande maioria estudantes.

Mochilas cobertas de poeira e sangue, cadernos espalhados entre os destroços e fileiras de pequenos caixões tornaram-se imagens que circularam pelo mundo.

Mas, como acontece com tantas tragédias contemporâneas, essas imagens correm o risco de desaparecer rapidamente no fluxo incessante das notícias.

A engrenagem da guerra global

A guerra contemporânea está sendo redefinida por tecnologias de vigilância, drones armados e sistemas de inteligência artificial.

Algoritmos analisam imagens.

Satélites identificam padrões de movimento.

Sistemas automatizados selecionam potenciais alvos.

Nesse modelo de guerra, quem decide o ataque muitas vezes está a milhares de quilômetros de distância.

O operador vê uma tela.

O algoritmo vê dados.

A vítima vê o céu.

A violência torna-se técnica.

A destruição torna-se administrativa.

Esse processo representa a fase mais recente do complexo militar-industrial, denunciado ainda nos anos 1960 pelo presidente americano Dwight D. Eisenhower.

Hoje esse complexo envolve não apenas fábricas de armas, mas também gigantes da tecnologia, sistemas de vigilância global e inteligência artificial aplicada à guerra.

A guerra tornou-se digital.

E, ao tornar-se digital, tornou-se ainda mais distante da experiência humana.

A acusação de Primo Levi ao nosso tempo

Quando Primo Levi escreveu “É isto é um homem”, queria impedir que o mundo esquecesse.

Queria impedir que a humanidade voltasse a atravessar o abismo moral que produziu Auschwitz.

Mas o século XXI parece caminhar novamente por uma estrada perigosa.

Uma estrada em que a tecnologia amplifica a violência.

Uma estrada em que a geopolítica transforma populações civis em danos colaterais.

Uma estrada em que o poder militar se apresenta como árbitro da vida e da morte.

Diante das ruínas de Gaza, das crianças soterradas por bombas, das mochilas espalhadas entre os escombros de uma escola iraniana e das imagens de drones que reduzem seres humanos a pontos numa tela, a pergunta de Levi retorna com força devastadora.

Não é apenas uma pergunta sobre o passado.

É uma acusação dirigida ao nosso tempo.

A pergunta que resta é simples — e assustadora.

Até onde um psicopata pode levar o mundo?

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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