Café com Notícias vira palco de alerta global após revelações de brasileiro que vive no Ártico Do gelo ao limite da vida: brasileiro que vive há 14 anos no Ártico faz alerta contundente sobre ursos polares, degelo e risco humano
RedeSat
O programa Café com Notícias, exibido na segunda-feira (02.03), abriu uma janela rara para um dos ambientes mais extremos do planeta. Do outro lado da linha, direto do Círculo Polar Ártico, o gaúcho Chicco Mattos levou ouvintes a uma realidade onde o frio não é detalhe — é condição básica de sobrevivência.
Há 14 anos morando no Ártico, o documentarista transformou a entrevista em um mergulho técnico e emocional sobre gelo, vida selvagem, mudanças climáticas e os limites do corpo humano diante da natureza bruta.
Vida moldada pelo frio extremo
Morador de Alta, no norte da Noruega, Chicco descreveu uma rotina guiada por temperaturas que ultrapassam facilmente os 20 graus negativos, meses de escuridão no inverno e uma logística que exige planejamento constante.
No Ártico, qualquer erro pode custar caro. Alimentação, deslocamentos em motos de neve, leitura das condições do gelo e monitoramento climático fazem parte de um protocolo diário. Tempestades repentinas, rachaduras imprevisíveis nas placas de gelo e longas travessias por áreas praticamente intocadas são parte da rotina.
Chicco se tornou o brasileiro que mais vezes chegou ao fim do planeta Terra, o Polo Norte geográfico. Nas expedições até o ponto mais extremo do hemisfério norte, o deslocamento ocorre sobre o gelo marinho, com monitoramento permanente das condições climáticas e das placas flutuantes — um ambiente onde planejamento e precisão são determinantes.
O alerta sobre os ursos polares
O momento mais impactante da entrevista veio ao abordar os ursos polares.
Segundo Chicco, o aumento do turismo em áreas remotas tem provocado situações cada vez mais preocupantes. Ele relatou que muitos turistas montam acampamentos em territórios onde há circulação natural dos ursos e, diante de qualquer aproximação, entram em pânico.
“Eles acampam em áreas de passagem dos ursos. Quando o animal aparece, o medo fala mais alto e acabam atirando”, explicou.
De acordo com o documentarista, em muitos casos o disparo não ocorre por ataque, mas por reação precipitada. “Em muitos casos, o urso morre por erro humano”, afirmou. Ele reforçou que o animal não é naturalmente agressivo, mas reage quando se sente ameaçado ou quando encontra alimento fácil em acampamentos mal planejados.
Para Chicco, a combinação entre turismo despreparado e ausência de conhecimento sobre comportamento animal tem custado a vida de ursos que apenas seguem seus trajetos naturais.
Ciência versus bem-estar animal
Chicco também levantou um debate delicado: as pesquisas científicas com a espécie. A instalação de chips e coleiras de monitoramento permite mapear deslocamentos e padrões comportamentais. No entanto, segundo ele, esses procedimentos podem gerar estresse e impactos físicos relevantes.
O desafio, na avaliação dele, é equilibrar produção de conhecimento e preservação do bem-estar animal.
Frost: a ursa que virou símbolo
Durante as filmagens em Svalbard, Chicco acompanhou por anos uma ursa que passou a reconhecer pelas marcas na pelagem. Ela foi batizada de Frost.
No início, parecia apenas mais um animal cruzando o gelo. Com o tempo, tornou-se presença constante nas expedições. Em algumas temporadas, surgia acompanhada de filhotes — nem todos sobreviveram.
Frost acabou se tornando símbolo das filmagens: força e fragilidade coexistindo no mesmo cenário. A ursa morreu após sofrer ferimentos graves compatíveis com um acidente. Para Chicco, sua trajetória resume o próprio Ártico: resistente, mas vulnerável.
Degelo histórico e vestígios de séculos ou milênios
O degelo foi outro ponto central da conversa. Ao longo de mais de uma década, Chicco relata mudanças claras na paisagem: gelo mais fino, períodos de derretimento prolongados e alterações no ciclo natural da região.
Segundo ele, em áreas onde o gelo antes praticamente não derretia, agora já é possível encontrar galhos e folhas de árvores expostos. São vestígios que estavam encobertos há séculos ou milênios e que começam a reaparecer com o avanço do descongelamento. Para o documentarista, a cena é simbólica e preocupante: o que permaneceu oculto por gerações volta à superfície como sinal inequívoco de transformação ambiental.
As consequências não atingem apenas os ursos. Focas, aves marinhas e comunidades humanas que dependem da estabilidade do gelo enfrentam mudanças profundas.
Baleias nos fiordes do norte
Chicco acompanha as temporadas em que baleias chegam aos fiordes do norte da Noruega, atraídas pela abundância de peixes em determinadas épocas do ano. Ele relata encontros com jubartes e orcas em águas geladas — cenas que revelam a potência e a delicadeza do ecossistema polar.
Observar as baleias, segundo ele, é compreender como o equilíbrio marinho depende diretamente das condições do gelo e da temperatura da água.
Aurora boreal e expedições responsáveis
A aurora boreal é outra paixão declarada de Chicco Mattos. Ele conduz grupos em busca do fenômeno luminoso que colore o céu do Ártico durante as noites de maior atividade solar. Para ele, acompanhar a dança das luzes é compreender a dimensão de um território onde natureza e ciência se encontram.
Além das produções documentais, Chicco promove expedições para turistas interessados em vivenciar o Ártico com responsabilidade. Os roteiros incluem observação da aurora boreal, navegação para avistamento de baleias, deslocamentos em motos de neve e travessias técnicas em áreas nevadas, sempre sob orientação rigorosa.
A proposta é permitir a experiência sem repetir os erros que ele critica: planejamento inadequado, desconhecimento do ambiente e atitudes impulsivas diante da vida selvagem.
O dia em que quase morreu
O momento mais tenso da entrevista veio quando relembrou um episódio que quase terminou em tragédia.
Ao atravessar um lago congelado com sua moto de neve, passou por uma camada de gelo aparentemente segura, mas fina demais para suportar o peso do veículo. Em segundos, a superfície cedeu e a moto afundou.
Sozinho, sob temperatura extrema, precisou agir rapidamente para evitar hipotermia. Conseguiu sair da água, alcançar uma área firme, retirar o veículo e percorrer o trajeto de volta molhado, enfrentando o frio intenso.
Controle emocional e preparo técnico foram decisivos.
Reconhecimento internacional
Ao longo da carreira, Chicco Mattos já produziu filmes para mais de 30 países. Seu currículo reúne trabalhos para BBC, Netflix, CNN, Rede Globo, ARTE TV e CCTV da China, consolidando seu nome no cenário internacional do documentário ambiental.
Hoje, compartilha o cotidiano polar com mais de um milhão de seguidores nas redes sociais e no YouTube, ampliando o debate sobre preservação e mudanças climáticas.
Ao final da entrevista Chicco Mattos, elogiou o formato do programa Café com Notícias que é comandado pelo jornalista, Gilvandro de Oliveira Filho. “O formato da bancada me surpreendeu com jornalistas e profissionais das mais diversas áreas e de variadas regiões do Brasil e até do exterior, trazendo dinamismo ao conteúdo. Fiquei muito feliz pelas importantes perguntas focadas principalmente ao meio ambiente e a situação climática do planeta”, enfatizou o gaúcho Chicco Mattos.
A participação do convidado foi além do relato de aventuras no gelo. Foi um chamado à responsabilidade diante de um território que, embora distante, já revela sinais claros de transformação.
Siga Chicco Mattos no YouTube
Contatos para as expedições feitas por Chicco Mattos no Ártico podem ser feitas através do site https://chiccomattos.com.br/
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