Brasileiro ajuda a criar 'gêmeo digital' de Ötzi, a famosa múmia do Homem de Gelo
'Gêmeo digital' de Ötzi é criado com ajuda do designer de Sinop (MT), Cícero Moraes Um pesquisador de Sinop (MT) participou de um projeto internacional que ...
'Gêmeo digital' de Ötzi é criado com ajuda do designer de Sinop (MT), Cícero Moraes Um pesquisador de Sinop (MT) participou de um projeto internacional que criou uma documentação tridimensional de alta resolução de Ötzi, o 'Homem de Gelo', uma das múmias mais famosas e estudadas do mundo. O trabalho, que teve participação do designer 3D Cícero Moraes, foi publicado nesta quarta-feira (26) na revista científica internacional Heritage. Ötzi viveu há cerca de 5,3 mil anos, durante a Idade do Cobre, e teve o corpo preservado naturalmente pelo gelo dos Alpes. Desde que foi encontrado por acaso, em 1991, o homem pré-histórico já ajudou cientistas a investigar desde hábitos alimentares e doenças até as circunstâncias da morte. No novo estudo, Cícero integrou uma equipe formada por pesquisadores e especialistas europeus que utilizou diferentes técnicas para criar modelos digitais detalhados da múmia e do contexto arqueológico relacionado a ela. O objetivo do grupo é permitir que pesquisadores estudem e acompanhem o estado de conservação de Ötzi com o mínimo de manipulação do corpo original. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 MT no WhatsApp Ao g1, Cícero contou que participou do trabalho ainda em 2024 e que o projeto passou por etapas técnicas e acadêmicas antes da publicação. Segundo ele, além do corpo, algumas ferramentas e acessórios também foram digitalizados, o que amplia ainda mais o potencial de pesquisa. "Basicamente, agora temos em apenas um lugar os dados externos e internos do Ötzi com grande resolução. Isso centraliza a observação, a análise e, claro, pode render insights acadêmicos e resultados promissores", ressaltou. O gêmeo digital de Ötzi, o Homem do Gelo Journal Internacional Morador de Sinop, Cícero é especialista em modelagem 3D e reconstrução facial forense e foi o primeiro brasileiro aceito em duas sociedades internacionais de alto QI. Apesar de ser conhecido por trabalhos reconstitui a aparência de personagens históricos, o projeto de Ötzi não teve como objetivo reconstruir o rosto do Homem de Gelo. Desta vez, o pesquisador aplicou tecnologias usadas na documentação tridimensional e no planejamento cirúrgico. "Fui o responsável pela digitalização externa e auxiliei na convergência de dados 3D, como na reconstrução interna, além de desenvolver a solução tecnológica usada para cruzar os dados: um programa utilizado por cirurgiões de 37 países, uma técnica testada em situações críticas ligadas à medicina, que demanda alta precisão métrica", explicou. 🤳'Gêmeo digital' da múmia Conforme o artigo publicado pelos pesquisadores, o projeto utilizou fotos de alta resolução e diferentes tecnologias para reproduzir digitalmente Ötzi e objetos associados ao achado arqueológico. Entre as técnicas está a fotogrametria, que permite construir modelos tridimensionais a partir de uma grande quantidade de fotografias feitas de diferentes ângulos. A equipe também enfrentou um desafio particular: Ötzi não pode simplesmente ser retirado do ambiente controlado para ser fotografado como um objeto comum. Atualmente, a múmia permanece em uma câmara refrigerada no Museu Arqueológico do Tirol do Sul, em Bolzano, na Itália, sob condições específicas de conservação. Trabalho para reconstrução digital de Ötzi teve participação do designer 3D Cícero Moraes Arquivo pessoal Para documentar o corpo, os pesquisadores explicaram que combinaram técnicas de fotografia e processamento tridimensional. O modelo externo da múmia também foi associado a imagens obtidas por tomografia computadorizada, permitindo visualizar estruturas internas e externas em três dimensões. Ainda conforme o estudo, foram usados softwares livres e de código aberto. Entre as ferramentas citadas estão Blender, InVesalius e OrtogOnBlender— esta última relacionada ao trabalho desenvolvido por Cícero. O uso de ferramentas abertas também busca fazer com que a metodologia possa ser reproduzida por outros pesquisadores. Na prática, a documentação funciona como uma espécie de cópia digital extremamente detalhada de Ötzi. Com ela, cientistas podem analisar características do corpo e acompanhar eventuais alterações na múmia sem precisar submetê-la constantemente a manipulações. Para Cícero, o projeto foi a realização de um sonho. Ele contou que, em 2018, visitou o museu e observou a múmia a poucos metros. Na ocasião, imaginou que iria adorar, um dia, poder participar de um projeto ligado a ela, mas, segundo ele, parecia algo muito distante e improvável. "Anos depois, recebi o convite e quase não acreditei, pois trata-se do ser humano mais estudado da história da arqueologia. Ter agora um artigo revisado por pares e publicado é, não apenas algo concluído no contexto técnico, mas a realização de um sonho", pontuou. O pesquisador mato-grossense foi contratado para participar do projeto por meio da empresa italiana Arc-Team, que presta serviços ao Museu Arqueológico do Tirol do Sul, onde Ötzi é preservado. O pesquisador mantém parceria com a empresa há mais de uma década, período em que participou de projetos ligados à Universidade de Pádua e ao Megamuseu de Aosta, entre outros. 🥶A descoberta do 'homem de gelo' Ötzi foi descoberto por dois turistas alemães em setembro de 1991, nos Alpes de Ötztal, perto da fronteira entre Itália e Áustria. Inicialmente, acreditava-se que o corpo pudesse ser de uma pessoa morta havia pouco tempo. Os estudos posteriores revelaram algo muito mais raro: o gelo havia preservado um homem que viveu há aproximadamente 5,3 mil anos. Ötzi, a múmia do 'homem do gelo', estava repleta de tatuagens Getty Images via BBC A descoberta se tornou especialmente importante porque, além do o corpo, roupas e equipamentos utilizados pelo homem foram encontrados preservados, oferecendo aos pesquisadores informações sobre a vida cotidiana durante a Idade do Cobre. Décadas de pesquisas ajudaram a montar uma espécie de biografia científica de Ötzi: 📏Ele tinha aproximadamente 1,60 metro de altura; 🤕Apresentava sinais de desgaste físico; 🏹Morreu após ser atingido por uma flecha no ombro esquerdo. Estudos genéticos, radiológicos e arqueológicos transformaram a múmia em uma fonte rara de informações sobre populações europeias pré-históricas. A ciência conseguiu investigar até mesmo o que ele comeu antes de morrer. Análises do conteúdo encontrado em seu estômago indicaram uma refeição rica em gordura, adequada ao ambiente de alta montanha em que ele estava. As pesquisas também identificaram problemas de saúde que parecem surpreendentemente atuais. Exames revelaram alterações nos vasos sanguíneos compatíveis com aterosclerose, fazendo de Ötzi o mais antigo paciente conhecido com evidências da doença, segundo o Museu Arqueológico do Tirol do Sul. Brad Pitt tem uma tatuagem inspirada na silhueta de Ötzi Reprodução A fama de Ötzi também ultrapassou, há tempos, os laboratórios e museus. O Homem de Gelo se transformou em uma figura da cultura popular e ganhou até espaço no corpo de uma estrela de Hollywood. O ator Brad Pitt tem uma tatuagem inspirada na silhueta de Ötzi no antebraço esquerdo. O desenho reproduz a imagem do corpo mumificado e faz parte da coleção de tatuagens do ator.