Ventania, enchentes e tornados: os últimos eventos extremos do clima têm relação com o El Niño? Entenda
Muro de armazém desaba sobre caminhão após fortes ventos atingirem a cidade de Santos, nesta quarta feira(29). A ventania também causou a derrubada de poste...
Muro de armazém desaba sobre caminhão após fortes ventos atingirem a cidade de Santos, nesta quarta feira(29). A ventania também causou a derrubada de postes de energia em ruas no Centro. JOTA ERRE/AGIF - AGÊNCIA DE FOTOGRAFIA/ESTADÃO CONTEÚDO Rajadas de vento recorde no Rio de Janeiro e em São Paulo, enchentes e tornado no Rio Grande do Sul, todos registrados nesta semana, têm algo em comum: todos são considerados eventos extremos do clima. Com o aquecimento acima do normal da atmosfera, a tendência, segundo os meteorologistas, é que esse tipo de evento se torne cada vez mais comum – algo que pode ser potencializado pelo El Niño muito forte previsto para os próximos meses. ⚠️Mas os especialistas alertam que a ventania observada em São Paulo e no Rio de Janeiro não tem relação direta com esse fenômeno, ao contrário do que afirmou o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Cavaliere. "Diretamente não está ligado, porque o que provocou a ventania em São Paulo e no Rio de Janeiro foi a chegada de uma frente fria", afirma o coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Cemaden, José Marengo. Veja os vídeos que estão em alta no g1 "Esses locais estavam com temperaturas muito altas e a chegada dessa frente provocou um choque térmico muito forte, o que trouxe o que a gente chama de frente de rajada", detalha o meteorologista. O consenso entre os meteorologistas é que a possível ligação entre o El Niño e os eventos extremos observados nos últimos dias é, no máximo, indireta. "O El Niño está confirmado, mas ele mal começou, está longe de estar no máximo. No Sudeste esse tipo de vento na estação seca é super raro", alerta Marcelo Seluchi, coordenador no Cemaden. Entenda mais sobre o que causou a ventania, as chuvas e o tornado abaixo. Impactos do El Niño 🌡️O El Niño é caracterizado pelo aquecimento acima do normal das águas do Oceano Pacífico, na faixa próxima ao equador. Ele acontece com frequência a cada dois a sete anos, mudando a circulação da atmosfera e alterando o padrão de chuvas e temperaturas em diferentes partes do mundo. César Soares, meteorologista da Climatempo, comenta que o El Niño faz com que os termômetros fiquem acima da média, mesmo fora de época, o que pode favorecer a ocorrência e manutenção de eventos extremos. Mas os efeitos do fenômeno no clima do Brasil devem ser sentidos somente a partir da primavera, quando o El Niño deve ganhar força. Historicamente, ele altera o padrão de chuva e temperatura no país e causa: aumento de chuva no Sul, com risco maior de eventos extremos; redução de chuvas no Norte e em partes do Nordeste; mais irregularidade nas precipitações no Sudeste e Centro-Oeste; maior frequência de ondas de calor. Mesmo com a alternância entre La Niña, neutralidade e El Niño, os cientistas destacam que o aquecimento global continua sendo o principal fator por trás das mudanças no clima. El Niño e La Niña Arte g1/Luisa Rivas O que esperar do El Niño este ano? O El Niño já se formou no Oceano Pacífico e deve ganhar força rapidamente entre julho e setembro, aumentando o risco de ondas de calor, secas, chuvas intensas e outros eventos extremos em diferentes partes do mundo. O alerta foi divulgado no início de julho pela Organização Meteorológica Mundial (OMM), agência das Nações Unidas responsável por acompanhar o clima. As projeções dos principais centros meteorológicos indicam um aquecimento expressivo das águas do Pacífico equatorial, especialmente nas porções central e leste do oceano. Em algumas das áreas usadas para monitorar o fenômeno, a temperatura da superfície do mar pode ficar mais de 2°C acima da média. Segundo a OMM, os modelos apresentam resultados semelhantes, o que aumenta a confiança de que o episódio será classificado como forte. A tendência é que o El Niño continue se intensificando ao longo do segundo semestre e atinja o pico entre novembro e fevereiro. “O El Niño já está em curso e deve se fortalecer rapidamente, transformando-se em um evento forte”, afirmou a secretária-geral da OMM, Celeste Saulo. Ela alertou que o fenômeno eleva as chances de secas e chuvas intensas, além de ondas de calor tanto em áreas continentais quanto nos oceanos. Imagens do satélite mostram variações no nível do mar em junho de 2026; áreas em vermelho indicando águas mais elevadas no Pacífico equatorial, sinal típico associado ao desenvolvimento do El Niño. Sentinel-6 Michael Freilich/NASA/NOAA TUDO O QUE VOCÊ PRECISA SABER SOBRE O EL NIÑO: Quando foi o último 'super' El Niño? Entenda por que o intervalo entre os eventos extremos vem encurtando Boias, robôs submersos e satélites: como cientistas medem o oceano para detectar o El Niño El Niño 2026: o que é, por que os cientistas estão em alerta e como isso pode afetar sua vida A força do El Niño, contudo, depende do quanto o Pacífico Equatorial vai aquecer nos próximos meses e, principalmente, de como a atmosfera vai responder a esse aquecimento. Para que o fenômeno ganhe intensidade, não basta o oceano ficar mais quente: é preciso que o sistema oceano-atmosfera passe a atuar de forma acoplada e persistente. Desde 2006, uma sequência de episódios de El Niño vem mudando cada vez mais o clima do planeta, que já está mais quente que no passado. Mesmo quando são considerados fracos ou moderados, esses eventos acontecem em um mundo aquecido e acabam aumentando o risco de extremos, como secas, enchentes e ondas de calor. Veja: 2006–2007: El Niño fraco a moderado. 2009–2010: El Niño moderado. 2014–2016: El Niño muito forte, ligado a recordes de calor e extremos mais frequentes. 2018–2019: El Niño fraco a moderado, mais curto e com impactos mais limitados. 2023–2024: El Niño forte, um dos mais intensos já registrados, associado a novos recordes de calor. Pela 1ª vez, mundo registra um dia com temperatura média global 2°C acima da era pré-industrial Condições geradas por El Niño podem facilitar as queimadas e impactar produções agrícolas. Michael Dantas/AFP via DW LEIA TAMBÉM: Entenda como explosões transformaram 'dia em noite' no Irã e colocaram cidade sob alerta de chuva ácida Calor extremo pode colocar atletas em risco em grandes eventos esportivos, alerta estudo Lado oculto da jaqueira: árvore invasora empobrece chão da Mata Atlântica e afeta sapos Guia de compras: 40 opções para se refrescar no calorão