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O caso Master consome o país

Por Míriam Leitão

O caso Master consome o país
Imagem da Rede Social

“Se cada vez que o Brasil liquidar um banco tiver que percorrer uma via crucis como essa, não é o banco que quebra, é o país que será tragado.” Essa foi a frase que ouvi numa conversa sobre o caso Master. Meu interlocutor faz parte da brigada de solução da crise. Ele define como “penoso, caro e lento” o processo que deveria ser natural e técnico. Afinal, o Master cometeu uma fraude de R$ 12 bilhões e tentou entregar a bomba para um banco público. Em boa hora, o Banco Central impediu o desastroso negócio.

Nesta via crucis da liquidação do banco de Daniel Vorcaro, o país passou por várias estações. A da última semana teve horror e espanto. Horror por saber que Vorcaro tinha uma milícia privada. Se alguém escrevesse uma ficção em que o codinome do matador de aluguel fosse “Sicário”, a obra seria criticada por falta de imaginação. Espanto diante da revelação de Malu Gaspar de que Alexandre de Moraes e Vorcaro tiveram uma troca de mensagens no dia da primeira prisão.

Foram erros sequenciais. Primeiro, o escritório da família do ministro não deveria ter um contrato com quem precisava tanto do poder. Segundo, Moraes não deveria ter tido conversa alguma com Daniel Vorcaro, dado que ele era cliente do escritório da mulher dele. Terceiro, o equívoco de usar técnicas que escondem o diálogo, como print de visualização única. Em nota, o ministro nega o teor do diálogo que lhe foi atribuído e garante que as mensagens divulgadas eram destinadas a outras pessoas. Ainda assim, não desmente o impróprio contato com Vorcaro.

Vorcaro vendia a fantasia de que comandava um banco menor lutando contra práticas anticompetitivas das grandes instituições bancárias. Por isso, ele fala para a namorada que vai ser uma bomba atômica a emenda do senador Ciro Nogueira. A bomba não seria nos bancos grandes, na verdade. Se aprovada, a emenda quebraria o Fundo Garantidor de Créditos. Com a garantia de R$ 250 mil, o FGC teve um rombo de R$ 50 bilhões com a quebra do Master e dos seus satélites. O que ocorreria se o Congresso tivesse aprovado a emenda do ex-chefe da Casa Civil de Jair Bolsonaro de elevar essa cobertura para R$ 1 milhão?

O FGC não é alavanca de competição, é instrumento de proteção de poupadores e de estabilidade do sistema financeiro nacional. Se o país cair na armadilha de que o aumento da concorrência no mercado bancário se dará com a proteção de negócios como os CDBs impagáveis de Vorcaro, estaremos mal. A competição é desejável, mas isso não implica desvirtuar instrumentos para criar vantagens indevidas para as instituições menores.

O senador Ciro Nogueira tem repetido que não é amigo de Daniel Vorcaro. Isso não tem a menor importância. Ele deve explicações ao país sobre ter apresentado uma proposta que seria a tábua de salvação do banqueiro. Vamos aos fatos: Vorcaro mantinha um negócio de altíssimo risco, com ativos de valor duvidoso e liquidez incerta. Seu passivo eram CDBs com rentabilidade extravagante. Para dirimir dúvidas do aplicador, informava que seus papéis tinham a garantia do FGC. Além disso, vendeu títulos para fundos de pensão estaduais através de negociações nebulosas.

Em resumo, o negócio de Vorcaro era estilo “Ponzi”, uma pirâmide financeira. Para ficar de pé, seu castelo de cartas se sustentava no tráfico de influências. Teria sido o crime perfeito, se o Congresso aprovasse a insensata proposta de Ciro Nogueira de colocar na Constituição que o FGC honraria aplicações de até R$ 1 milhão.

O caso Master está tragando o país, drenando suas forças, expondo as vísceras, revivendo dores. Mais do que mostrar as conexões de um fanfarrão, exibe nossa vulnerabilidade. O Brasil acabou de travar uma pesada batalha contra o obscurantismo político, uma luta com a própria história para que ela não se repetisse. No comando desse confronto entre o autoritarismo e a democracia estava o Supremo Tribunal Federal e mais precisamente Alexandre de Moraes.

Não atino o motivo de ter lembrado do início da obra de “José e Seus Irmãos”, de Thomas Mann, quando ouvi meu interlocutor dizer que o caso tragava o país. O “Prelúdio” tem o título de “Descida ao inferno”, e começa assim: “Fundo é o poço do passado.” Numa tradução mais antiga: “É muito fundo o poço do passado.” No Brasil, até o passado recente, o quase presente, lembra um poço fundo, que pode nos engolir, se não tivermos a noção do que podemos perder em cada travessia da história.

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