'Escolhi ganhar uns anos a mais de vida': usuários contam por que decidiram abandonar anabolizantes
Projeto da UNIFESP incentiva quem parar de usar "suco", gíria para anabolizante A busca por um corpo mais musculoso e por resultados rápidos levou pessoas de ...
Projeto da UNIFESP incentiva quem parar de usar "suco", gíria para anabolizante A busca por um corpo mais musculoso e por resultados rápidos levou pessoas de diferentes perfis a recorrer aos anabolizantes. No universo das academias, as substâncias são conhecidas como “suco” e aparecem como um atalho para acelerar o ganho de massa muscular. Mas, para alguns usuários, a decisão de conquistar um corpo considerado ideal acabou acompanhada de problemas de saúde e impactos psicológicos. Depois de experimentar os efeitos das substâncias e conhecer os riscos do uso prolongado, eles decidiram interromper o consumo e procurar ajuda especializada. É o caso do influenciador e publicitário Paulo Gab, que começou a lidar com questões relacionadas à própria aparência ainda na infância. Magro, ele sofreu bullying na escola e teve problemas de autoestima. “Eu fui uma criança e um adolescente muito magricela. E isso foi um problema para a minha autoestima, eu sofria muito bullying na escola”, contou. Já na academia, o anabolizante passou a ser visto por ele como uma forma de acelerar os resultados. “É muito comum o uso do anabolizante, justamente por ser uma força motriz que vai te dar um pouquinho mais de rapidez para chegar naquilo que a gente se pressiona para ter.” Com o tempo, porém, Paulo também viu de perto as consequências do uso entre pessoas próximas. "Eu tenho amigos próximos que quase entraram na fila de transplante de rins. por não ir atrás de informação do que aquilo podia trazer a longo prazo". A experiência contribuiu para que ele decidisse interromper o consumo e procurasse atendimento especializado. 'Epidemia do suco': busca por corpo perfeito leva mais pessoas aos anabolizantes e preocupa médicos Usuários contam por que decidiram abandonar anabolizantes Reprodução/TV Globo Projeto ajuda usuários a abandonar o 'suco' Na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), o projeto “Saindo do Suco com Segurança” foi criado para ajudar usuários que querem interromper o consumo de anabolizantes. A iniciativa oferece acompanhamento de profissionais como nutricionistas e psicólogos e busca auxiliar os participantes não apenas na interrupção das substâncias, mas também nas dificuldades psicológicas que podem aparecer durante o processo, incluindo possíveis recaídas. Quem coordena o projeto é o médico Clayton Macedo. Segundo ele, alguns usuários chegam a combinar três tipos diferentes de anabolizantes, inclusive substâncias que não foram estudadas em humanos. A morte do fisiculturista e influenciador Gabriel Ganley, de 22 anos, em maio, também provocou aumento na procura pelo atendimento. O atleta tinha cerca de 2 milhões de seguidores e falava abertamente sobre o uso de anabolizantes. Ele morreu de forma súbita após problemas cardíacos. Gabriel Ganley defendia fisiculturismo sem hormônios, mas passou a usar substâncias em julho do ano passado Gabriel Ganley: quem era o fisiculturista e influenciador que morreu aos 22 anos em SP Reprodução Risco de morte é três vezes maior De acordo com Clayton Macedo, usuários de esteroides anabolizantes têm risco de morte três vezes maior. A possibilidade de desenvolver miocardiopatia, doença que afeta o músculo cardíaco, é nove vezes maior. O uso das substâncias também pode afetar fígado, rins e sistema hormonal. Entre as possíveis consequências estão hepatite medicamentosa, tumores hepáticos, infertilidade e alterações comportamentais. Para Macedo, o problema deixou de estar restrito ao fisiculturismo e passou a representar uma questão de saúde pública. “Uma epidemia de mau uso de hormônios”, afirma o médico, que também aponta a influência das redes sociais e critica profissionais que, segundo ele, podem transmitir uma falsa sensação de segurança para quem utiliza as substâncias. Ele afirma ainda que pessoas sem deficiência hormonal não deveriam usar os hormônios com finalidade estética e que nenhum acompanhamento médico é capaz de garantir que o uso será seguro. Mercado bilionário, fama nas redes e riscos à saúde: os bastidores do universo do fisiculturismo Projeto da UNIFESP incentiva quem parar de usar "suco", gíria para anabolizante Reprodução/TV Globo A pressão pelo corpo começa antes do anabolizante Para os profissionais da Unifesp, a relação problemática com a própria aparência pode começar muito antes do primeiro contato com os hormônios. O professor de bioquímica Paulo de Melo também passou pelo processo de abandonar os anabolizantes. Na infância e na adolescência, ele era obeso e sofreu bullying. Anos depois, já com outro corpo, precisou enfrentar uma nova dificuldade: aceitar a perda de parte da massa muscular conquistada durante o período em que usava as substâncias. Paulo relaciona essa experiência ao filme A Substância, estrelado por Demi Moore, que aborda a obsessão com a aparência. “Quando eu assisti a Demi Moore se tornando aquele monstro, eu me vi naquele monstro.” Ele está há um ano sem usar anabolizantes. A adaptação, segundo ele, tem sido difícil principalmente pelo aspecto psicológico, já que durante muito tempo se acostumou a enxergar o próprio corpo de outra maneira. 'Escolhi ganhar uns anos a mais de vida': usuários contam como abandonaram os anabolizantes Reprodução/TV Globo 'Estou muito pronto e muito feliz' Abandonar o “suco” também significa aceitar mudanças na aparência. Para quem passou anos associando o corpo musculoso à própria autoestima, deixar os anabolizantes pode significar enfrentar uma nova relação com a imagem corporal. Gabo, influenciador e modelo que também passou pelo projeto, destacou a maneira como os profissionais conduzem o atendimento. Segundo ele, o ambiente criado pela equipe permitiu falar sobre questões que não conseguia abordar com facilidade. “Eu estou muito pronto e estou muito feliz”, afirmou ao falar sobre a decisão de seguir em frente com um corpo menos forte. O projeto atualmente acompanha 158 homens e quatro mulheres, com idade média de 38 anos. Entre os participantes estão advogados, empresários, policiais e trabalhadores da construção civil. Para os especialistas, o perfil mostra que o uso de anabolizantes não está restrito a atletas ou fisiculturistas. Há também pessoas que começaram a utilizar as substâncias ainda na adolescência e permaneceram por anos consumindo hormônios. 'Muito mais do que você está perdendo' Para Paulo de Melo, abandonar os anabolizantes é um processo que precisa respeitar o tempo de cada pessoa. “Eu espero que tenha mais pessoas que busquem esse tipo de ajuda, cada um no seu tempo. É um processo.” Depois de deixar as substâncias, a escolha, para ele, passou a ser menos sobre perder massa muscular e mais sobre preservar a própria saúde. “A partir do momento que você escolhe ganhar uns anos a mais de vida, você escolhe levar uma vida mais saudável, você está ganhando, com certeza, muito mais do que está perdendo.” Projeto ajuda usuários a abandonar o 'suco' Reprodução/TV Globo