'Sabores, Sons e Memórias': Aos 103 anos, Dona Nem vive cercada por dois séculos de história em casarão de Itapecerica
Conheça detalhes do casarão bicentenário onde vive Dona Nem, de 103 anos, em Itapecerica Em Itapecerica, no Centro-Oeste de Minas, o passado não está apena...
Conheça detalhes do casarão bicentenário onde vive Dona Nem, de 103 anos, em Itapecerica Em Itapecerica, no Centro-Oeste de Minas, o passado não está apenas nos livros, nas igrejas ou nos documentos guardados em arquivos. Ele ainda mora em algumas casas e, em uma delas, vive uma história centenária. Aos 103 anos, Dona Nem é a moradora de um dos casarões mais antigos da cidade, um imóvel que atravessa gerações da família e ajuda a contar a história de um município conhecido pela preservação de tradições e patrimônio. Esta é a primeira reportagem da série especial "Itapecerica: Sabores, Sons e Memórias", que será publicada pelo g1 aos domingos. A série vai percorrer histórias, personagens, lugares, sabores e tradições que ajudam a explicar por que Itapecerica é considerada um dos berços culturais do Centro-Oeste de Minas. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 Centro-Oeste de Minas no WhatsApp Dona Nem - idosa de 103 anos- Itapecerica - Anna Lúcia Silva/g1 E, para começar essa viagem no tempo, nada melhor do que abrir uma porta que há décadas permanece como sempre foi. Do outro lado dela está Maria das Dores Ribeiro Mendes, a Dona Nem. Ela própria revela o nome completo e a data de nascimento: 28 de março de 1923. Aos 103 anos, lúcida e com uma memória que atravessa gerações, ela vive com a irmã Maria José, de 84 anos, no casarão que está localizado ao lado da Igreja de São Francisco, uma das construções mais importantes de Itapecerica que conta histórias por meio de corredores, escadas, portas, móveis, objetos e paredes. Casarão bicentenário - Itapecerica - Casa da dona Nem Memorial Municipal/Divulgação Uma casa que parou no tempo Do lado de fora é possível perceber que o casarão passou por uma pequena reforma. Uma nova pintura foi feita em 2002, mas entrar na casa de Dona Nem é atravessar uma fronteira entre o presente e o passado. O casarão conserva características que foram mantidas ao longo dos anos. Muitos detalhes não foram modificados. O imóvel tem dezenas de ambientes e quartos, além de elementos da construção que resistiram ao tempo. No vídeo acima, o g1 faz passeio pela residência e mostra detalhes que, para quem chega pela primeira vez, nitidamente percebe que ela pertence a outro século. Initial plugin text A preservação do imóvel é uma preocupação do sobrinho de dona Nem e dono do imóvel onde ela mora, Dom Gil Antônio Moreira, arcebispo de Juiz de Fora e filho de Itapecerica. Ele mantém uma relação próxima com a casa e faz questão de preservar a construção e a memória da família. Dom Gil também é conhecido pela ligação com as tradições religiosas e culturais da cidade. Atualmente, ele mora em uma rua lateral à residência. E a escolha tem um motivo que diz muito sobre a forma como ele enxerga aquele espaço. Ele, como homem, prefere não ser um possível limitador da liberdade das mulheres que vivem na casa. Por isso, mantém a própria residência separada, permitindo que Dona Nem e a irmã tenham autonomia e privacidade. A família de Dom Gil chegou ao imóvel em 1921. Naquele ano, o casarão foi comprado pelo bisavô materno dele, o médico José dos Santos Ribeiro, conhecido como Vovô Juca, juntamente com os filhos Cleveland e Washington e o genro João Mendes de Cerqueira. “Foi em 1921 que o sobrado passou a pertencer à nossa família", disse. A chegada da família aconteceu em um período em que o imóvel precisava de muitos cuidados. Segundo Dom Gil, o casarão estava fechado havia algum tempo e apresentava sinais de abandono. O imóvel estava tão abandonado que uma árvore de assa-peixe havia nascido dentro da cozinha e precisou ser retirada a machado. 🔎O assa-peixe é um arbusto nativo do Brasil, muito usado na medicina popular. Suas folhas e flores brancas ou lilases servem para fazer chás expectorantes contra tosse e bronquite, além de atrair abelhas para a produção de mel. A própria estrutura da casa guarda marcas de diferentes períodos. Durante uma grande reforma iniciada em 2001, foram encontrados pilares de madeira, paredes internas de pau a pique e amarras de cipó que permaneciam preservadas apesar da passagem do tempo. Casarão bicentenário em Itapecerica; foto de 1985 Memorial Municipal/Divulgação A rotina de quem atravessou um século Atualmente, Dona Nem divide a casa com a irmã, de 84 anos. As duas recebem o acompanhamento de cuidadoras, mas a idade não apagou em Dona Nem uma das características que ela considera fundamentais para ter chegado aos 103 anos: manter a cabeça ocupada. Quando perguntada sobre o segredo da longevidade, ela não hesita: "Não pode ficar à toa." A resposta vem acompanhada de uma convicção que ela carrega há décadas. Para Dona Nem, manter a mente ativa é uma das chaves para envelhecer bem. E ela colocou a ideia em prática durante boa parte da vida. Bordado, crochê e trabalhos manuais fizeram parte da rotina. As mãos que hoje carregam as marcas de mais de um século ainda são capazes de contar histórias por meio do que produzem. A filosofia dela também pode ser resumida em um velho ditado. "Cabeça vazia, oficina do diabo”. Não ficar parada, portanto, nunca foi apenas uma recomendação. Foi um jeito de viver. Dona Nem nunca se casou e não teve filhos. Quando o assunto chega à vida a dois, ela responde com o humor de quem já acumulou mais de um século de experiência. A pergunta sobre se valeu a pena não ter se casado recebe uma resposta rápida, acompanhada de brincadeira: "Não vale a pena ter homem, não." A frase, dita com leveza, resume uma escolha de vida que ela nunca pareceu lamentar. A família, no entanto, nunca esteve distante. Dona Nem conta com o apoio dos sobrinhos, entre eles Dom Gil, e de outros familiares, que ajudam nos cuidados e na rotina. A ligação da família com a fé também atravessa gerações: cerca de dez parentes, entre tios e sobrinhos, seguiram ou ainda seguem a vida religiosa como padres. No casarão, a presença da fé aparece nos objetos religiosos, na proximidade com a Igreja de São Francisco e, sobretudo, nas histórias da própria família. Aos 103 anos, Dona Nem fala sobre a vida com a leveza de quem ainda não tem pressa para ir embora. Quando perguntada sobre quanto tempo ainda pretende viver, responde sem hesitar: “Quero viver mais. Se eu puder viver, quero viver mais. Vai vivendo, vai vivendo... até Nosso Senhor quiser. Já aí quando Ele me chamar, eu vou. Contrariada! Não vou com vontade não (risos). Viver é bão demais, né? Com saúde, alimentando bem, tudo bão", disse a centenária. Aos 103 anos, Dona Nem guarda histórias de gerações em Itapecerica LEIA TAMBÉM: Sabores da roça viram estratégia de desenvolvimento de Itapecerica Uma testemunha de três séculos Dona Nem nasceu quando Itapecerica ainda era marcada por uma sociedade muito diferente da atual. Ela atravessou mudanças na forma de morar, trabalhar, se comunicar e se relacionar. Viu a cidade crescer sem perder completamente os traços de seu passado. Agora, ao caminhar pela residência, não precisa recorrer às fotografias para reconhecer o que viveu. As paredes ajudam a lembrar. Uma porta leva a outra lembrança. Um móvel remete a uma pessoa. Um quarto recupera um episódio. Um objeto aparentemente banal ganha significado quando explicado por quem esteve ali décadas atrás. É justamente essa combinação entre personagem e patrimônio que transforma o casarão em algo maior do que uma casa antiga. É uma espécie de arquivo vivo. Itapecerica ainda mantém parte importante da arquitetura colonial e tradições. Documentos de patrimônio do município destacam que os casarões centenários e as igrejas preservadas permitem ao visitante "caminhar" por diferentes períodos da história da cidade. E talvez não exista maneira mais concreta de entender isso do que sentar ao lado de Dona Nem e ouvi-la falar. O tempo que ficou nas paredes Memória também é preservada nas paredes do casarão bicentenário em Itapecerica Andreza Brito/Divulgação Em uma época em que casas antigas são substituídas por novas construções e objetos são constantemente trocados, o casarão de Dona Nem segue resistindo. Não porque tenha sido congelado artificialmente, mas porque houve quem entendesse que algumas coisas precisam permanecer. Dom Gil faz questão de preservar a casa, a parede com fotos de vários parentes e Dona Nem preserva as histórias. E as paredes preservam aquilo que nenhum documento consegue registrar completamente: o jeito como uma família viveu dentro delas. E Dona Nem é mais do que uma moradora de um casarão antigo. Ela se tornou patrimônio de uma memória que pertence à família, à Igreja de São Francisco e à cidade de Itapecerica. Uma memória que ainda fala. VÍDEOS: veja tudo sobre o Centro-Oeste de Minas